Capa - Edição 95 - Dezembro 2011

Que venha 2012 (continuação)

 

O ano de 2011 chega ao fim deixando um saldo positivo para a infraestrutura do trânsito brasileiro. Isso porque algumas obras relevantes, tanto para os centros urbanos quanto para a malha rodoviária, foram concluídas e entregues à população. E, a partir de agora, com o aproximar de grandes eventos esportivos a serem realizados no Brasil, como a Copa das Confederações (2013) e a Copa do Mundo (2014), a expectativa é de que novas melhorias sejam executadas para dar conta de atender a demanda que desembarcará em território tupiniquim.

A revista Entre-Vias pretende, nesta matéria, elencar várias dessas intervenções que mudaram, para melhor, o cenário das capitais brasileiras. A começar pela imponente ponte Rio Negro, inaugurada no último dia 24 de outubro, que interliga as cidades de Manaus (AM) e Iranduba (AM), com extensão de 3.595 m.
As obras tiveram início efetivo em maio de 2008, considerando as fases de mobilização e implantação do canteiro. De acordo com o secretário-geral da Secretaria Executiva do Conselho de Desenvolvimento Sustentável da Região Metropolitana de Manaus, René Levy, a ponte custou R$ 811 milhões, dos quais 70% foram financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o restante, pelo tesouro estadual. “Além da obra de arte em si [a ponte], incluem-se no projeto os acessos viários das margens esquerda e direita, o sistema de iluminação, a proteção dos pilares e as sinalizações náutica e viária, totalizando, então, R$ 1,1 bilhão para o conjunto de 11,2 km de extensão”, ressalta o secretário. De segunda a quinta-feira, o fluxo médio diário de veículos fica em torno de 2,5 mil, e nos fins de semana esse número triplica, afirma Levy.

Para dar mais fluidez ao trânsito da zona Leste de São Paulo, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras da maior cidade brasileira construiu o que se tornou um novo cartão-postal: o viaduto estaiado Dom Luciano Mendes de Almeida. Recorrer aos “estais” foi necessário em decorrência da extensão do vão – ele tem 122 m de comprimento e canteiros centrais estreitos na avenida Salim Farah Maluf. Esse recurso da engenharia, conforme explica a Secretaria, permite a construção de lajes mais leves e esbeltas, com espessura de meio metro, possibilitando um gabarito (distância entre o solo e a superfície inferior da laje) mais alto, ideal para a passagem de caminhões grandes. Em cada lado do arco da ponte, foram instalados vinte "estais", cada um deles formado por 48 cordoalhas de cabos de aço. A durabilidade aproximada dos "estais" é de cem anos. Em caso de acidentes, eles poderão ser trocados, pois a estrutura do viaduto permite sua manutenção sem a necessidade de interdição da via para reparos.

O viaduto estaiado integra o complexo viário Padre Adelino, executado na região do Tatuapé e constituído ainda por outros dois viadutos: o Catingá/Belém – feito para interligar o bairro da Penha aos bairros Brás e Belém, com extensão de 260 m – e o Pires do Rio. Este último passou por ampliação, recebendo o acréscimo de duas faixas de rolamento, enquanto as estruturas foram restauradas e readequadas, para suportar um tráfego mais intenso e pesado. As obras custaram mais de R$ 110 milhões.


Importante para o cenário urbano de Fortaleza, a avenida Sargento Hermínio, entre as vias José Bastos e Padre Anchieta, passou por ampliação depois de três anos de obras. Ela deixou de ter 12 m de largura e, agora, com 27,4 m, tem duas faixas por sentido. Além de aumentar a capacidade viária, a avenida foi restaurada com obras de drenagem, pavimentação, padronização das calçadas, reforma dos canteiros centrais e implantação de nova sinalização. De acordo com a Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e de Cidadania de Fortaleza, o investimento é da ordem de R$ 2,5 milhões.
A construção de dois viadutos também foi a intervenção de destaque mencionada pela Agência Municipal de Obras de Goiânia (Amob). Um deles, situado na BR-153, no conjunto Caiçara, na região Leste da capital, foi construído pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) com recursos da ordem de R$ 10,8 milhões. Conforme a Amob, a obra contribuiu para desafogar o trânsito por onde passam mais de 10 mil carros por dia, além de aumentar a segurança na região.

O outro viaduto fica na avenida Perimetral Norte, no bairro Goiânia II. O município desembolsou cerca de R$ 1,5 milhão para dar andamento a essa obra, que estava parada há dez anos. Além disso, foram entregues à população a extensão e duplicação da avenida Afonso Pena, que liga a avenida Pedro Paulo, no mesmo bairro, até o Campus II da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Com o intuito de melhorar a organização do trânsito na entrada e saída de Boa Vista (RR), a prefeitura executou o chamado Contorno Oeste, considerado a maior obra de mobilidade urbana já realizada no município. O conjunto de intervenções contemplou a construção de dois viadutos, uma ponte, a duplicação da BR- 174 e a pavimentação desse contorno. Um viaduto fica na interseção da BR-174 com a avenida Estrela Dalva, no bairro Raiar do Sol, e tem extensão de 15 m. O outro, com 33 m de comprimento, foi construído no ligamento do contorno com a rodovia.

A BR-174, na saída Sul da capital Boa Vista, recebeu ainda sinalização e pavimentação em mais de 15 km. Com o fim do empreendimento, a rodovia ficou interligada nos sentidos Manaus/Boa Vista e Boa Vista/Alto Alegre. A obra foi orçada em R$ 61 milhões, sendo R$ 58 milhões provenientes de convênio com o Ministério dos Transportes, e os outros R$ 3 milhões,
de contrapartida da prefeitura municipal.

MALHA RODOVIÁRIA

O setor dos transportes no país viveu momentos de turbulência e escândalos neste ano,que culminaram com as quedas do então ministro Alfredo Nascimento e do ex-diretor-geral do Dnit Luis Antônio Pagot. Devido às suspeitas de superfaturamento em obras, muitas licitações ficaram suspensas de julho até novembro, mas algumas obras relevantes puderam ser concluídas, como foi o caso de três grandes intervenções em Minas Gerais.

Em Betim, a BR-262 se desliga da diretriz da BR-381, com a qual é coincidente, e toma o rumo da região Centro-Oeste. O trecho de maior movimento são os 85 km que separam a cidade betinense de Nova Serrana. Essa região concentra importantes polos industriais e comerciais do Estado, e foi nesse segmento que a rodovia passou por duplicação.
Conforme informações do departamento em Minas, foram R$ 400 milhões de investimento, provenientes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com a construção de 30 novas obras, entre pontes, viadutos, passagens inferiores e passarelas. Iniciados em março de 2009, os trabalhos de duplicação foram concluídos em tempo recorde, na avaliação do Dnit. O prazo contratual para o término era de três anos, mas os serviços foram finalizados em apenas dois.


Um dos mais importantes corredores de cargas do Brasil, a BR-135 passou por revitalização. Foi a primeira vez que a rodovia, implantada há 40 anos, sofreu esse tipo de intervenção. A BR teve o pavimento restaurado em 300 km. Também foram implantadas terceiras faixas para veículos pesados, alargamento de todas as 30 pontes e viadutos existentes, melhorias em cinco importantes trevos e a construção de cinco travessias urbanas com ruas laterais. O empreendimento teve custo de R$ 560 milhões.

Por fim, a BR-040, que liga Brasília ao Rio de Janeiro, num total de 1.180 km, foi contemplada com a duplicação de um dos seus trechos em Minas. O empreendimento, que cobre os 45 km da rodovia entre Sete Lagoas e o trevão de Curvelo, com investimentos da ordem de R$ 250 milhões, facilita o escoamento agrícola e aumenta a segurança na área urbana abrangente, conforme o Dnit no Estado. As obras se concentraram no segmento entre o trevo de Curvelo e a cidade de Paraopeba. Nesse trecho, a rodovia foi restaurada e duplicada em 14 km de extensão. No chamado Contorno de Paraopeba, de 8,2 km, o tráfego pesado foi retirado do perímetro urbano.

O Dnit entregou à cidade o eixo viário urbano com 5 km de pista dupla totalmente restaurada, remanescente da rodovia que cortava o município. As intervenções contaram também com a construção de seis pontes, dois viadutos (acesso para Caetanópolis e Paraopeba) e quatro passagens inferiores.

Em Águas Lindas, cidade do entorno do Distrito Federal conhecida pelo ecoturismo e o comércio, o Dnit duplicou a BR-070. A extensão da obra é de quase 17 km e o trecho também ganhou cinco passarelas no perímetro urbano do município, além de um viaduto e uma ponte sobre o rio Descoberto. O investimento para a execução do projeto foi de R$ 136,9 milhões.
As obras começaram em abril de 2010 e são concluídas neste mês de dezembro.

Este ano também teve importância fundamental para a malha rodoviária do Tocantins. O governo lançou o Programa Emergencial de Recuperação das Rodovias Estaduais, com o objetivo de recuperar 39 trechos e fazer a roçagem de outros 89, início de pavimentação asfáltica de cinco pistas, a retomada de asfaltamento que estava paralisado em outros 14 trechos e a conclusão das pontes de Lajeado e Barra do Ouro.

AVALIAÇÃO DO SETOR

Para Márcio Antônio Arantes, presidente da Associação de Benefícios e Proteção ao Amigo Caminhoneiro (Abpac), a obra mais relevante deste ano foi a ponte sobre o rio das Velhas, na BR-381, na altura de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em pleno feriado prolongado do mês de abril, a estrutura do local cedeu e teve de ser interditada.
Acionado, o Exército colaborou na construção de uma estrutura provisória para tentar atenuar os impactos negativos do fechamento da ponte. Cerca de cinco meses depois, a obra definitiva ficou pronta, até por ser considerada de caráter emergencial. “Ela não saiu em tempo recorde, mas foi feita em um tempo bom, e é a que mais mexe com nossos bolsos e horários”, disse.
Arantes espera que, para 2012, a duplicação da BR-381, sentido BH/João Monlevade, possa enfim ser executada. Esse também é o desejo de Romildo José, presidente da Associação de Transportadores de Cargas do Leste de Minas (Astransleste). “Esta é uma reforma que estamos precisando de maneira urgente”, destaca Romildo José.

O presidente da Associação dos Carreteiros Autônomos de Transporte (Acat), Marcos Alberto Lachi, espera que neste ano novo ocorra a duplicação da rodovia Régis Bittencourt, BR- 116, que liga as cidades de São Paulo (SP) e Curitiba (PR). “Estamos aguardando que isso seja feito há anos. E parece que, enfim, depois de muitos acidentes, viram que a obra realmente é necessária.”

Mesmo diante de alguns anseios que já duram algum tempo, José Geraldo de Farias, presidente da Cooperativa dos Cegonheiros do Estado de Minas Gerais (Coopercemg), avalia que as condições das rodovias melhoraram bastante, principalmente nos trechos que têm pedágio. “A Fernão Dias [381], por exemplo, é duplicada sentido São Paulo e apresenta uma situação muito favorável para quem está ao volante. Temos alguns trechos ruins ainda no país, mas avançamos”, ressalta.

SEGURANÇA PARA PEDESTRE

Uma boa-nova para os pedestres neste ano veio de Belém (PA). Inaugurado no dia 30 de setembro, o Pórtico Metrópole é considerado um projeto inédito no país por ser a única passarela concebida com escadas rolantes e elevadores, atendendo à Lei Federal de Acessibilidade.

O empreendimento está localizado na BR- 316. De acordo com o prefeito de Belém, Duciomar Costa, o projeto atende três aspectos muito importantes: “a segurança na travessia dos pedestres, a fluidez no trânsito de veículos e a delimitação dos municípios de Belém e Ananindeua”. Com a instalação dessa travessia, tornou-se possível retirar um semáforo localizado no início da rodovia, garantindo, assim, a melhor circulação de veículos. Cerca de 2 mil pessoas transitam, por hora, no trecho onde a passarela foi instalada.

A construção do Pórtico Metrópole teve início em setembro de 2008. O investimento foi de R$ 9,4 milhões, sendo R$ 7,2 milhões custeados por recursos federais (por meio do Dnit) e R$ 2,2 milhões provenientes da Prefeitura de Belém. Além de elevadores e escadas rolantes, o empreendimento possui uma rampa para ciclistas.





Edições anteriores:

Entre-Vias 94: Medo sobre rodas: Conforme ressaltou o presidente da Associação Sul Mineira dos Caminhoneiros (Assulmic), José Cândido Lemes, para minimizar a violência nas estradas, seria necessário incrementar a quantidade de policiais bem como dispor, a cada 200 km, de uma área de descanso com estrutura apropriada nas principais rodovias que cortam o país.



Entre-Vias 93: Estradas de Minas em alerta:
As estradas mineiras são um espelho fiel da realidade rodoviária nacional: um espaço saturado, descuidado e de riscos crescentes para todos os usuários. Elas são o testemunho de décadas de incapacidade de planejamento e investimento do Estado brasileiro e do descompromisso da gestão pública com a segurança viária”, denuncia o presidente da Em Trânsito Consultoria, Eduardo Biavati.

Entre-Vias 92: Um século salvando vidas: A história do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) se confunde com a história da capital mineira. Quando Belo Horizonte foi inaugurada, apesar de ter sido planejada, não contava com o atendimento a incêndios em sua estrutura municipal. Esse esquecimento se fez sentir em menos de um ano após a inauguração da cidade, no incêndio do quartel da Força Pública, na Praça Floriano Peixoto, em 1898.

Entre-Vias 91: Uma casa sem teto e sem nada: Dizem que as estradas são a casa dos motoristas. Contudo, a dita residência está muito aquém do que é esperado em um lar: infraestrutura e segurança. Essas premissas não são encontradas em muitas rodovias brasileiras: cada vez é mais difícil conseguir local para estacionar e descansar, alimentar-se, higienizar-se e cuidar da saúde. Nesta reportagem, serão apresentados casos que revelam o descaso para com uma das principais categorias econômicas do país. É uma completa rede de desrespeito – que começa no governo e chega aos estabelecimentos privados, que oferecem serviços “casados” para os transportadores.


Entre-Vias 89: Transporte sustentável: uma combinação possível: Uma palavra tem tomado conta das rodas de conversas, das matérias jornalísticas e da gestão das empresas: sustentabilidade. Não é sem motivo que esse conceito está tanto em voga. Ele correlaciona e integra de forma organizada os aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade. Isso significa suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de proverem as próprias necessidades.

Entre-Vias 88: Anjos do Asfalto - Primeiros socorros que salvam vidas: A leitura das estatísticas mostra que os acidentes ficaram mais violentos. Em 2009, para cada 10 mil envolvidos, 112 morreram. No ano passado, o número subiu para 148. Entre todos os Estados, em apenas cinco os números recuaram: Santa Catarina, Piauí, Distrito Federal, Paraíba e Acre. Em Minas Gerais, que tem a maior malha federal do país e lidera em vítimas, houve salto de 9,89%. Santa Catarina, apesar da queda de 0,88%, continua com números altos. Neste ano, registrou um dos mais graves acidentes do país, a colisão entre um ônibus e uma carreta em Descanso. O acidente matou 28 pessoas.

Entre-Vias 87: Procure, olhe e desconfie: Uma das principais reclamações dos motoristas em relação à má conservação das estradas é a sinalização. Relatam que as placas quando não se encontram escondidas entre a vegetação estão ilegíveis, destruídas ou simplesmente não existem, uma situação que compromete assustadoramente a segurança no trânsito.
“A sinalização inadequada e ineficiente é um dos fatores contribuintes para acidentes nas vias. A má sinalização deixa os usuários à mercê dos riscos e dos perigos decorrentes da circulação de pessoas e veículos”, pontua José Nivaldino Rodrigues, especialista em Educação para o Trânsito, mestre e doutorando em Sociologia do Trânsito.

 

 

 
 
 
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