DUPLA CAMPEÃ!
Pedro Henrique e Maria Eduarda transformaram anos de treino, renúncias e dedicação em medalhas internacionais. Mais do que serem campeões, eles mostram como o esporte pode formar pessoas e abrir caminhos para uma vida inteira.
Quando Verônica e Cleber levaram Pedro Henrique pela primeira vez a um dojo de karatê, aos 3 anos de idade, ninguém imaginava até onde aquela decisão os levaria. Poucos anos depois, foi a vez da irmã, Maria Eduarda. Hoje, aos 16 e aos 13 anos, respectivamente, os dois não apenas colecionam títulos estaduais e nacionais como escreveram seus nomes na história do karatê mundial ao representarem o Brasil no campeonato realizado em Malta, na Europa, onde conquistaram medalhas logo em sua estreia internacional.
A edição deste ano aconteceu entre os dias 27 e 29 de março, reunindo delegações internacionais em um dos maiores eventos organizados pela World Karate Alliance (WKA). Mais do que um resultado esportivo, a trajetória dos irmãos revela como disciplina, educação e apoio familiar podem transformar o esporte em uma verdadeira escola para a vida.
Na família, o karatê nunca foi tratado como uma obrigação. Cleber Alessandro e Verônica Afonso de Souza Conceição sempre fizeram questão de deixar claro aos filhos que medalhas nunca seriam mais importantes do que o aprendizado. “Nunca colocamos pressão ou expectativa. Pódio e medalha são consequências. O importante é colocar em prática aquilo que aprenderam e voltar felizes por terem feito o melhor”, resume Cleber.
A filosofia deu resultado. Os irmãos cresceram entendendo que vencer faz parte do esporte, mas que perder também faz. “Ganhar ou perder e aprender a lidar com isso é importante. Por mais que a gente explique, eles só aprendem vivendo. Eles se frustram, choram, perdem, levantam e continuam. Isso faz parte da formação deles”, conta Verônica.
Ela observa outro detalhe que chama atenção durante as competições. “O mais bonito é ver o cuidado que um tem com o outro. Eles torcem, vibram e sofrem juntos. Mesmo competindo, um está sempre preocupado com o outro”, diz ela.
Essa cumplicidade acabou sendo levada literalmente para o tatame quando os irmãos conquistaram o Campeonato Brasileiro na categoria kata Duplo em Família, resultado que garantiu uma das vagas brasileiras para o Mundial.
Uma viagem que mudou tudo
A classificação para o Mundial em Malta veio graças aos resultados conquistados na Copa do Brasil e no Campeonato Brasileiro. Nas competições nacionais, os três primeiros colocados garantem automaticamente a vaga para representar o país.
Em março, eles embarcaram para a maior experiência esportiva de suas vidas. O Campeonato Mundial reuniu atletas de 19 países. A delegação brasileira contou com aproximadamente 140 competidores, e Minas Gerais levou 12 atletas, sendo cinco deles de Betim.
Juntos, eles foram parar em Malta, um país localizado no Sul da Europa, no coração do Mar Mediterrâneo. Apesar de ser próximo à Itália, Malta não faz parte do território italiano. É um destino famoso pelo clima ensolarado, pelas paisagens históricas e pelas águas cristalinas.
Essa foi a primeira participação internacional dos dois, e, logo na estreia, vieram resultados históricos. Pedro Henrique conquistou medalha de ouro no kata e bronze no Kumite. Maria Eduarda voltou para casa com o bronze no kata.
Mais do que subir ao pódio, Pedro se tornou o primeiro atleta da academia Koryu-kai a conquistar um ouro em um Mundial. “Até então eu participava apenas dos campeonatos daqui. Nunca imaginei disputar uma competição mundial. Quando ganhei o ouro, percebi que estava abrindo um caminho para outros atletas da academia”, frisa.
Muito além de medalhas
Apesar da pouca idade, Pedro fala sobre o karatê como quem já compreendeu que o esporte vai muito além da competição. Hoje cursando o segundo ano do ensino médio, ele divide a rotina entre escola, estudos e treinamentos. “Tenho que saber administrar meu tempo. O karatê me ensinou disciplina e compromisso desde pequeno. Sei exatamente o que preciso fazer e quando preciso fazer”, detalha o atleta.
O próximo desafio vai além das competições. Ainda neste ano, Pedro fará o exame para conquistar a faixa preta. No karatê, porém, a mudança de faixa representa muito mais do que evolução técnica. O novo graduado passa a ser exemplo para os mais novos, auxilia nas aulas, pode atuar como árbitro ou técnico e assume uma postura de liderança dentro do dojo.
“Meu professor completa décadas de karatê neste ano. Vai ser muito especial conquistar a faixa preta neste momento”, salienta Pedro Henrique. No futuro, ele pretende seguir outro sonho: cursar direito na UFMG.
Descobrindo o mundo
Para Maria Eduarda, a maior lembrança de Malta não foi apenas a medalha, foi descobrir um mundo completamente novo. “Achei que seria impossível conseguir medalha. Foi uma experiência muito boa.” Pela primeira vez, ela conviveu com atletas de diversos países: “Tinha pessoas falando outras línguas, lutando estilos diferentes de karatê”. Ela também percebeu diferenças curiosas. “As meninas eram enormes perto de mim”, conta ela.
Apesar da desvantagem física, encontrou pontos positivos. “Por eu ser menor, consigo fazer alguns movimentos do kata com mais rapidez”, explica. A experiência também mostrou outro desafio para quem sonha em competir internacionalmente. “Tem que saber inglês. A gente precisa conversar com atletas de outros países”, diz.
O papel do sensei
Para o sensei Kim, que completa mais de quatro décadas dedicadas ao ensino do karatê, o sucesso dos dois atletas nunca foi fruto apenas do talento. “O grande diferencial sempre foi o apoio da família. Cleber e Verônica abraçaram o karatê como parte da educação dos filhos”, afirma. Segundo ele, os títulos são consequência de muitos anos de trabalho.
“Pedro começou aos 3 anos. Duda chegou pouco depois. Cresceram dentro do dojo. Nunca se acomodaram. Sempre treinaram muito”, diz Kim, para quem o karatê ensina valores difíceis de aprender em outros ambientes. “A criança aprende disciplina, respeito, controle emocional, perseverança e entende que toda conquista exige esforço”, ensina.
Depois de 44 anos ensinando, ele faz uma reflexão que resume sua missão: “Meu maior orgulho não são os campeões que formei. São os homens e as mulheres de bem que saíram do nosso dojo”.
O preço de representar o Brasil
Se dentro do tatame os resultados aparecem, fora dele a realidade é bem diferente. Toda a preparação para o Mundial foi financiada praticamente pela própria família. Passagens, hospedagem, alimentação, inscrições e equipamentos ficaram sob responsabilidade dos pais. “A gente banca praticamente tudo. Conseguir patrocínio é muito difícil”, afirma Cleber.
Segundo ele, estados como Goiás e Distrito Federal oferecem incentivos muito maiores aos atletas, enquanto em Minas muitos projetos acabam dependendo apenas do esforço das famílias e dos professores.
“O sensei já bateu em muitas portas procurando apoio. Infelizmente, quase sempre a ajuda só aparece em época de eleição”, reforça o pai. Kim corrobora. Segundo ele, essa é uma das principais barreiras para o crescimento do esporte. “O Brasil tem talento de sobra. O que falta é investimento. Muitos atletas deixam de competir porque as famílias não conseguem pagar”, pontua.
Uma escola para a vida
Depois da experiência em Malta, o foco agora está no Campeonato Brasileiro, que será disputado em Brasília, em novembro. Os irmãos seguem treinando praticamente todos os dias. Mas, independentemente das próximas medalhas, há uma conquista que ninguém poderá tirar deles.
O karatê ensinou que vencer não significa apenas subir ao lugar mais alto do pódio. Significa aprender a respeitar, perseverar, cair e levantar quantas vezes forem necessárias. E talvez seja exatamente por isso que Pedro Henrique e Maria Eduarda já tenham conquistado muito mais do que títulos.
O karatê vai além de um esporte de combate, é uma arte marcial japonesa baseada no desenvolvimento da técnica, da disciplina e do autocontrole. Seu nome significa “mãos vazias”, uma referência ao fato de que a prática utiliza o próprio corpo como instrumento de defesa, sem armas.
Embora seja conhecido pelas lutas, o karatê é dividido em duas modalidades competitivas. O kata consiste na execução precisa de uma sequência de golpes e movimentos que simulam um combate contra adversários imaginários. Já o kumitê é a luta entre dois atletas, realizada sob regras rigorosas de segurança e pontuação.
Não existe uma idade única para se iniciar. Muitas academias recebem crianças a partir dos 3 ou 4 anos, com aulas adaptadas para o desenvolvimento motor e cognitivo. Na infância, o foco está menos na competição e mais na aprendizagem dos movimentos, da coordenação, do respeito às regras e da convivência em grupo. Adultos e idosos também podem iniciar a prática, desde que façam uma avaliação médica quando necessário.
Os ganhos do karatê aparecem tanto no corpo quanto no comportamento. A modalidade contribui para o desenvolvimento da coordenação motora, do equilíbrio, da força, da flexibilidade e do condicionamento físico. Mas especialistas destacam que os maiores benefícios costumam ser emocionais e sociais.
A prática ajuda crianças e adolescentes a desenvolverem disciplina, concentração, responsabilidade, respeito a colegas e professores, controle emocional, autoconfiança e perseverança, características que frequentemente se refletem no desempenho escolar e na convivência familiar. “O karatê forma pessoas antes de formar atletas”, resume o sensei Kim, professor de Pedro Henrique e Maria Eduarda.
Antes de matricular uma criança, vale observar alguns aspectos importantes: a formação e a experiência dos professores, se o ambiente prioriza respeito, disciplina e segurança, se as aulas são adequadas para cada faixa etária, se há equilíbrio entre desenvolvimento técnico e formação humana, sem pressão excessiva por resultados.
Também é recomendável assistir a uma aula antes da matrícula para conhecer a metodologia e a relação entre professores e alunos.
O significado das faixas
No karatê, as faixas representam o estágio de aprendizado e a evolução do praticante. A sequência pode variar entre federações e estilos, mas, normalmente, começa na faixa branca, seguida por cores como amarela, laranja, verde, roxa, marrom e, por fim, a faixa preta.
Cada mudança de graduação exige tempo de prática, frequência nos treinos e aprovação em um exame, no qual o aluno demonstra domínio técnico, conhecimento teórico e maturidade para avançar.
Chegar à faixa preta não representa o fim da caminhada. Ao contrário. É o início de uma nova etapa de aperfeiçoamento, na qual o praticante assume maior responsabilidade dentro do dojo, torna-se referência para os alunos mais novos e pode, futuramente, atuar como instrutor, árbitro ou até mesmo professor da modalidade.
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