Alerta à vista

Pesquisa da CNTA mostra realidade do transportador autônomo brasileiro: envelhecimento, falta de renovação da profissão e riscos futuros ao transporte rodoviário de cargas no país

Segurança / 20 de Março de 2026 / 0 Comentários

A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) divulgou, no início de dezembro, durante audiência pública da Comissão de Viação e Transportes (CVT) da Câmara dos Deputados, os resultados da terceira edição da Pesquisa Nacional CNTA sobre a R

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A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) divulgou, no início de dezembro, durante audiência pública da Comissão de Viação e Transportes (CVT) da Câmara dos Deputados, os resultados da terceira edição da Pesquisa Nacional CNTA sobre a Realidade do Transportador Autônomo de Cargas. 

 

Inédito em sua abrangência, o estudo é reconhecido como um dos principais diagnósticos do setor e traça um retrato detalhado do perfil dos caminhoneiros autônomos, suas condições de trabalho, desafios enfrentados e percepções sobre a profissão em todo o país.

Os dados da edição 2025 acendem um alerta para o futuro do transporte rodoviário de cargas no Brasil. O levantamento aponta para o envelhecimento acelerado da categoria e a ausência de renovação profissional. A idade média dos caminhoneiros autônomos é de 46 anos, sendo que 34% já ultrapassaram os 50 anos. 

 

Outro dado significativo revela que 86% dos entrevistados afirmam que nenhum de seus filhos pretende seguir na atividade, rompendo uma tradição familiar historicamente presente no setor. O cenário se torna ainda mais preocupante ao indicar que 23% desejam abandonar a profissão e que 82% não se sentem valorizados, combinação que pode resultar, no médio e no longo prazo, em escassez de mão de obra e impactos no abastecimento nacional.

 

A pesquisa foi conduzida pela Trucker Inovação e Empreendedorismo Social, empresa contratada pela CNTA, entre os meses de junho e agosto de 2025. A metodologia incluiu entrevistas presenciais com 2.002 caminhoneiros autônomos registrados no RNTRC, distribuídos proporcionalmente pelas cinco regiões do país. A coleta ocorreu em pontos estratégicos da atividade, como postos de combustíveis, centros de carga, balanças rodoviárias e locais de grande circulação, abrangendo 11 estados: Amazonas, Tocantins, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

 

Panorama geral

O perfil traçado pelo estudo mostra que a categoria é predominantemente masculina: 99% dos entrevistados são homens. Em relação à escolaridade, 62% possuem apenas o ensino fundamental. A pesquisa também revela que 89% têm filhos, o que reforça a dimensão social da profissão e sua importância para a renda familiar.

 

A frota utilizada pelos caminhoneiros autônomos apresenta idade média próxima de 15 anos. Cerca de 33% dos veículos têm entre 10 e 14 anos de uso, e 71% já foram totalmente quitados. O levantamento aponta ainda que 58% utilizam pneus recauchutados, evidenciando a necessidade de políticas públicas voltadas à renovação da frota, com linhas de crédito compatíveis com a realidade dos autônomos.

 

A rotina de trabalho segue marcada por longas jornadas e afastamento prolongado do lar. Em média, os caminhoneiros trabalham 14 horas por dia e passam cerca de 16 dias por mês fora de casa. A renda líquida média apurada gira em torno de R$ 14 mil mensais, o que corresponde a aproximadamente R$ 40 por hora trabalhada - valor considerado insuficiente frente aos altos custos operacionais da atividade. A falta de infraestrutura adequada também se reflete no descanso: 96% dos profissionais afirmam dormir em postos de combustível por não encontrarem pontos de parada apropriados.

 

Na área da saúde, o levantamento identifica fragilidades relevantes. Mais da metade dos entrevistados (56,7%) convive com algum tipo de comorbidade, e 62% só procuram atendimento médico quando já estão doentes. Além disso, 86% não praticam atividade física regularmente. O estudo também aponta que 27,3% já fizeram uso de substâncias psicoativas para se manterem acordados ao volante.

 

A sensação de insegurança nas rodovias é outro fator recorrente. Segundo a pesquisa, 58% dos caminhoneiros afirmam nunca se sentir seguros durante o trabalho. Entre os entrevistados, 16,9% já foram vítimas de furto de carga, e 13,3% relataram roubos com violência. A precariedade é agravada pelo descumprimento de direitos previstos em lei: 52% não recebem o vale-pedágio obrigatório por meio de TAG, 46,1% aguardam mais de cinco horas para carga ou descarga, e mais de 90% não recebem o pagamento da estadia pelo tempo parado.

 

O levantamento mostra ainda que 84,9% discordam da exigência de 11 horas consecutivas de descanso, e 78% relatam dificuldade para encontrar locais adequados para cumprir a regra, o que evidencia falhas estruturais que impactam diretamente a segurança viária e a qualidade de vida dos profissionais.

 

Audiência pública

A audiência pública foi solicitada pelo deputado Zé Trovão (PL-SC), conduzida pelo deputado Leonidas Cristino (PDT-CE) e contou com a presença de parlamentares, representantes do governo e entidades que integram a base coligada da CNTA.

 

Após a exposição dos dados, os participantes iniciaram um debate sobre os principais pontos levantados pelo estudo. Ao apresentar os resultados no Parlamento, a CNTA busca dar visibilidade às fragilidades enfrentadas pelos caminhoneiros autônomos justamente no espaço onde são formuladas as políticas públicas e as leis capazes de promover maior proteção, reconhecimento e fortalecimento da categoria.

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