Imprudência sem freio

Polícia Rodoviária Federal registra recorde de desrespeito 
às normas de trânsito. Operação Rodovida em Minas Gerais 
também apresenta índices negativos de descumprimento das leis.

Capa / 20 de Março de 2026 / 0 Comentários

O balanço com as principais estatísticas do trabalho realizado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em 2025 revela que a segurança viária enfrenta um grande desafio: a imprudência.

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O balanço com as principais estatísticas do trabalho realizado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em 2025 revela que a segurança viária enfrenta um grande desafio: a imprudência. O levantamento apresenta recorde histórico no número de infrações cometidas nas BRs de todo o país. Durante todo o ano passado, a PRF contabilizou 10.277.088 condutas contrárias ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o que representa um aumento de 7,79% em comparação com 2024, quando foram registradas 9.534.233 infrações.

O excesso de velocidade segue como a infração mais cometida nas rodovias federais. Em 2025, foram mais de 7,1 milhões de flagrantes de motoristas transitando com velocidade incompatível. Desse total, 6.170.111 foram flagrados dirigindo até 20% acima do limite permitido, enquanto 985.967 transitaram em velocidade superior à máxima permitida entre 20% e 50%, o que caracteriza conduta ainda mais grave e de maior risco.

Em seguida, estão cerca de 250 mil ocorrências de veículos sem licenciamento. As ultrapassagens em faixa contínua, responsáveis por graves colisões frontais, também figuram entre as principais irregularidades. No total, mais de 195 mil motoristas realizaram essa manobra de forma perigosa. Também foram registrados 144.974 casos de desobediência às ordens da autoridade de trânsito, evidenciando resistência às ações de fiscalização.

Além disso, a PRF contabilizou 119.356 ocorrências envolvendo motoristas sem CNH ou com documentação irregular e 112.565 autuações por falta do uso do cinto de segurança, comportamento que agrava significativamente as consequências de acidentes.

Raio-X da violência

Em relação aos sinistros de trânsito nas rodovias federais brasileiras no ano passado, a PRF registrou 72.483 ocorrências, resultando em 6.044 mortes e 83.483 pessoas feridas. Esses dados indicam que 16 pessoas morreram e aproximadamente 230 se feriram por dia nas estradas do país em 2025. Entre os tipos de sinistros mais recorrentes e letais, destacaram-se as colisões frontais e traseiras, as saídas de pista relacionadas ao excesso de velocidade e os atropelamentos.

Embora tenha havido leve redução em relação ao ano anterior, o volume de ocorrências graves permanece elevado. “Mais do que desobediência às normas, as pessoas precisam ter consciência de que a imprudência muitas vezes mata”, chamou a atenção o diretor-geral da PRF, Fernando Oliveira, em coletiva de imprensa realizada no dia 10 de fevereiro, em Brasília.

Três estados registraram os maiores acumulados: Minas Gerais, com 9.559 sinistros de trânsito; Santa Catarina, com 8.184; e Paraná, com 7.619. As três unidades da Federação também ocupam a mesma colocação nacional quanto ao número de feridos. Entre os estados com mais mortes, mantêm-se Minas Gerais e Paraná, mas a Bahia surge em terceiro lugar.

Minas Gerais

As BRs 101, 116 e 040 lideram o ranking de autuações em 2025. Juntas, elas somam mais de 5,8 milhões de flagrantes de irregularidades. Com extensão total aproximada de 4.660 km, a BR-116 cruza Minas em um trecho de cerca de 816 km, em um percurso que vai da Zona da Mata ao Norte do estado. Ela fica atrás apenas da BR-101, que lidera os rankings nacionais de acidentes de trânsito e mortes.

A BR-040, por sua vez, figura como a terceira rodovia federal com mais registros de acidentes no país, com 3.502 ocorrências. A via tem cerca de 1.180 km de extensão, dos quais aproximadamente 850 km passam por Minas, ligando o estado ao Distrito Federal e ao Rio de Janeiro.

Já a BR-153, que também corta Minas, conectando o Triângulo Mineiro à região Centro-Oeste e ao estado de São Paulo, está em terceiro lugar no ranking das rodovias federais com mais mortes no Brasil. No ano passado, foram registrados 282 óbitos na via.

Conhecida como “Rodovia da Morte”, a BR-381 foi a rodovia federal com a maior média de acidentes por quilômetro entre 2018 e 2024. Segundo estudo da Fundação Dom Cabral (FDC), houve 3,24 acidentes a cada mil metros de pista.

A BR-381 tem 899 km de extensão e está dividida em dois trechos. Um, totalmente duplicado, conta com 584 km e liga Belo Horizonte a São Paulo. Outro, com parte em pista simples, possui 351 km e vai da capital mineira a Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, onde se conecta à BR-116. A estrada é majoritariamente gerida pela iniciativa privada, com exceção de uma pequena porção de asfalto, de 37 km, entre Belo Horizonte e o trevo de Caeté, na região metropolitana.

“Ainda que a Fernão Dias, nome dado ao trecho Belo Horizonte-São Paulo, seja mais moderna, de pista dupla e com boa sinalização, o número de acidentes por quilômetro ali (3,82) é quase o dobro do registrado no outro trecho, o Belo Horizonte-Valadares Ð esse, sim, responsável pelo apelido ‘Rodovia da Morte’. Nele, entre 2018 e 2024, foram contabilizados 2,16 acidentes por quilômetro. A Fernão Dias possui pista dupla, e o tráfego é mais intenso do que na porção Belo Horizonte-Valadares, onde a gravidade dos acidentes, colisões frontais, chama a atenção”, analisa o estudo da fundação.

Anjos de macacão

Exatamente nesse trecho acontece a atuação dos Anjos do Asfalto: um grupo de voluntários socorristas com foco no atendimento de primeira resposta. Criados no início da década de 2000, os Anjos se consolidaram como referência na resposta inicial às vítimas, no apoio no local de acidentes e na assistência até a chegada das equipes oficiais de resgate, como Samu e Corpo de Bombeiros.

“Observamos melhorias estruturais nos últimos anos, como maior fiscalização, inclusive eletrônica, frequência de campanhas educativas, veículos mais seguros e maior acesso às informações. Contudo, esses aspectos não significam maturidade e responsabilidade no volante. Infelizmente, ainda predominam, principalmente em períodos festivos, o excesso de velocidade, o uso de álcool associado à direção, ultrapassagens indevidas, utilização de celular ao volante e cansaço extremo, especialmente de motoristas profissionais pressionados por prazos. Ou seja, a tecnologia avançou mais do que o comportamento”, analisa o presidente dos Anjos do Asfalto, Geraldo Eugênio de Assis.

Ele observa que, no fim de ano e no Carnaval, a imprudência aumenta significativamente: “Há uma sensação coletiva de relaxamento e motoristas com pouca experiência transitando pelas estradas, além da mistura entre álcool e direção. Especificamente durante os festejos carnavalescos, há uma intensificação de viagens curtas e impulsivas e trânsito concentrado no mesmo horário”.

Nesse período, os principais atendimentos realizados pelos Anjos do Asfalto decorreram de colisões traseiras, provocadas por distração com celular, congestionamentos inesperados e falta de distância; capotamentos, causados por velocidade excessiva e pista molhada; e acidentes com motociclistas. Também foram prestados atendimentos em função de mal súbito ao volante Ð situação mais frequente do que as pessoas imaginam, geralmente motivada por hipertensão, infarto e desmaios por exaustão. “O que mais pesa não é o volume de acidentes, e, sim, a gravidade. Durante os feriados, há mais vítimas graves e múltiplas ocorrências e, por isso, maior necessidade de atuação integrada entre Samu, PRF e Corpo de Bombeiros. A estrada não mata sozinha: quem decide o nível de risco é o comportamento humano. Nesse sentido, as campanhas educativas precisam deixar de ser apenas institucionais e passar a ser emocionais e reais, mostrando as consequências concretas”, afirma.

A atuação dos Anjos do Asfalto é 100% voluntária e sem fins lucrativos, contando com profissionais liberais, socorristas e colaboradores da comunidade, que, muitas vezes, custeiam despesas como combustível e materiais de resgate com recursos próprios ou por meio de doações e patrocínios de empresas parceiras locais.

Constantemente, os voluntários participam de formações especializadas em resgate urbano e em estruturas colapsadas, com treinos intensivos que ampliam a capacidade do grupo de atuar em incidentes complexos, além do atendimento rodoviário tradicional.

Rodovida

A percepção do presidente dos Anjos do Asfalto reflete os dados da PRF, que encerrou recentemente a Operação Carnaval 2026, inserida no programa Rodovida. O levantamento revela aumento de acidentes e mortes em relação ao ano anterior nas rodovias federais brasileiras.

Em 2026, foram registrados 1.241 sinistros de trânsito, 130 mortes e 1.481 feridos nas rodovias federais durante o período do Carnaval. Em 2025, no mesmo recorte, havia sido registrado o total de 1.190 sinistros, 85 mortes e 1.433 feridos. Os dados mostram aumento no número total de ocorrências e, sobretudo, elevação significativa no total de óbitos, superior a 50% em relação ao ano anterior, além de leve crescimento no número de feridos.

A PRF destaca que a maioria das vítimas mortas continua concentrada em automóveis e motocicletas, o que reforça a vulnerabilidade desses usuários e orienta o foco das ações de fiscalização e educação para o trânsito. O órgão também aponta que os chamados “sinistros graves” tiveram alta de 8,54%, indicando maior severidade dos acidentes mesmo com a presença ostensiva de equipes nas estradas.

Durante a Operação Carnaval 2026, a PRF registrou 55.582 imagens de veículos transitando acima do limite de velocidade nas rodovias federais. As equipes autuaram 8.670 motoristas por falta de cinto de segurança ou transporte inadequado de crianças, além de 9.263 condutores por ultrapassagens irregulares, uma das condutas mais associadas a colisões frontais graves.

Outro eixo de atuação foi o combate às irregularidades no uso de motocicletas, com foco em condutores e passageiros que trafegavam sem capacete. Nesse ponto, 1.954 autuações foram aplicadas a motociclistas por circulação sem o equipamento obrigatório de proteção, reforçando a preocupação da PRF com esse público, historicamente entre os mais atingidos pelas mortes no trânsito.

Ações regionais

Em Minas Gerais, os números mostram que a letalidade cresceu mesmo com a queda no total de acidentes. No Carnaval de 2026, foram registrados 137 sinistros, com 164 pessoas feridas e 22 mortes nas rodovias federais do estado; em 2025, havia sido registrado o total de 168 sinistros, 208 feridos e 19 mortes. A combinação de menos acidentes com mais óbitos evidencia que parte das ocorrências foi de alta gravidade, frequentemente associada a excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas e ausência de equipamentos de segurança.

Os registros de infrações em Minas Gerais reforçam esse diagnóstico: 1.558 motoristas foram autuados por ultrapassagens proibidas no Carnaval 2026, ligeiro aumento em relação a 2025, quando 1.532 condutores foram multados pelo mesmo tipo de manobra. No mesmo período, 11.469 veículos foram flagrados pelos radares transitando em excesso de velocidade, e 1.356 veículos, autuados por falta de uso do cinto de segurança ou transporte inadequado de crianças.

Apesar da ampliação da campanha Rodovida e do reforço operacional no Carnaval 2026, o aumento de sinistros e mortes nas rodovias federais demonstra que o comportamento de risco de parte dos motoristas ainda impõe desafios à política de segurança viária. Os números de autuações por excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas e falta de cinto indicam que muitos condutores seguem ignorando regras básicas de proteção.

Criada em 2011 e transformada em programa de governo em 2021, a Operação Rodovida é a maior iniciativa de segurança viária coordenada pela PRF, articulando diferentes órgãos de trânsito para reduzir mortes e lesões nas estradas brasileiras. A edição 2025/2026 teve início em dezembro e se estendeu até 22 de fevereiro de 2026, abrangendo festas de fim de ano, férias escolares e o feriado de Carnaval, período em que o fluxo de veículos aumenta de forma expressiva.

A Rodovida integra ações de fiscalização, educação para o trânsito e monitoramento em trechos críticos, com metas alinhadas ao Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans) e aos compromissos assumidos pelo Brasil junto à Organização das Nações Unidas (ONU) para reduzir em pelo menos metade o número de mortes até 2030.

 

 

 

 

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