Natal de heróis
Em seu 15º ano, Natal Solidário dos Anjos do Asfalto leva alegria, acolhimento e brinquedos para crianças de comunidades às margens da BR-381
Chega dezembro, eles tiram os macacões laranjas e vestem-se de super-heróis para alegrar o Natal de centenas de crianças.
Chega dezembro, eles tiram os macacões laranjas e vestem-se de super-heróis para alegrar o Natal de centenas de crianças. E tem presença garantida do Papai-Noel! Foi com essa mistura de fantasia, carinho e voluntariado que o Grupo de Resgate Anjos do Asfalto transformou o Natal de centenas de pequenos que vivem em comunidades próximo à BR-381, em Minas Gerais.
A iniciativa reúne, há 15 anos, sempre no dia 25 de dezembro, doações de brinquedos, guloseimas e panetones, além de uma grande mobilização de parceiros e voluntários para levar alegria a regiões que, todos os anos, já aguardam a passagem da caravana. Já foram mais de 5.000 brinquedos distribuídos no decorrer de todos esses anos de ação. Os voluntários percorrem localidades ao longo do trecho da rodovia atendido pelos Anjos do Asfalto, como Sabará, Ravena, Roças Novas e Nova União.
Para um momento tão especial, é preciso uma verdadeira legião de voluntários. Foram mais de dez participantes na ação, distribuindo brinquedos, conversando com as crianças e fazendo brincadeiras. Já o Sindicato dos Cegonheiros de Minas Gerais (Sintrauto/MG) doou os panetones. E dezenas de pessoas físicas e associações doaram recursos financeiros para a compra dos brinquedos novos.
Movido pelo voluntariado!
O presidente do grupo, Geraldo Eugênio de Assis, lançou um desafio para si neste ano: se chegássemos a R$ 4.000 arrecadados, ele iria percorrer 400 km a pé. "Chegamos a R$ 6.000 muito antes do previsto. Agradeço a todos que acreditam no trabalho dos Anjos do Asfalto e que sempre nos ajudam nas campanhas. É uma grande alegria participar, ajudar a organizar, estar com as crianças neste momento. Eles já esperam a chegada dos Anjos e dos personagens fantasiados. É um momento de muita alegria", afirma Geraldo.
O trabalho para o Natal Solidário começa meses antes, com a arrecadação de recursos e brinquedos, mas, para o presidente do grupo de resgate, cada esforço vale a pena. “As dificuldades enfrentadas pelos brasileiros são diversas. Muitas vezes, os pais não têm como presentear seus filhos no Natal. Já tivemos casos de crianças que nunca tinham comido um panetone. Poder proporcionar isso é uma recompensa para nós mesmos. Apesar do trabalho prévio, todos os anos o Natal acaba bem, e a criançada adora. Isso é o que nos motiva!”, diz o presidente dos Anjos do Asfalto.
Segundo Geraldo, a ação nasceu da percepção de que o fim de ano, apesar de marcado por diversas campanhas de doação, ainda precisava ampliar o olhar para as crianças. “Essa iniciativa começou há mais de uma década. Somos um grupo de voluntários especializado em resgate de vítimas em acidentes rodoviários que atua às margens da BR-381 entre Sabará e João Monlevade. Por estarmos perto das comunidades dessa região, identificamos a oportunidade de agraciar crianças com uma ação de Natal. Começamos e não paramos mais”, relembra.
O grupo, reconhecido principalmente pelo trabalho de atendimento a vítimas de acidentes, decidiu expandir sua atuação para além da rodovia, mantendo como marca o compromisso humanitário. O resultado, segundo os organizadores, se repete a cada ano - mas exige cada vez mais esforço, articulação e engajamento coletivo para manter o padrão de cuidado e alcance da ação.
Arrecadação, triagem e entrega
O Natal Solidário não acontece apenas no dia da entrega. Ele começa semanas antes, com a mobilização para arrecadar brinquedos novos e usados em bom estado, organizar pontos de coleta e convocar apoiadores para ajudar no processo.
A logística inclui, além do armazenamento, o cuidado com a seleção dos brinquedos. Voluntários fazem triagens para garantir que tudo o que será entregue esteja em condições adequadas. O objetivo, segundo participantes, é que cada criança receba um presente digno - e que a experiência seja, acima de tudo, afetuosa.
Na edição do ano passado, a iniciativa envolveu, em todas as etapas, cerca de 25 pessoas, que participaram desde a arrecadação até a distribuição final. Bonecas, carrinhos, bolas, jogos e até bicicletas foram reunidos em grande quantidade. A organização estima que, na ocasião, foram mais de 500 brinquedos, que encheram caminhonetes e vários sacos para a entrega pelo Papai-Noel.
Saulo Monteiro Ferreira é condutor socorrista e diretor do grupo Anjos do Asfalto. Há 15 anos, ele participa da ação todo dia 25 de dezembro. “Na última ação, chegamos a arrecadar 500 brinquedos para serem distribuídos em cerca de seis pontos de parada. Eles vão para crianças das comunidades, das periferias, que, normalmente, ficam esperando esse momento. Nós chegamos à localidade, damos uma volta com a sirene ligada, e as crianças já sabem que o Papai-Noel chegou. Nós contamos com a ajuda da Polícia Militar e, quando é possível, de uma equipe do Samu”, detalha Ferreira.
Brilho nos olhos e memória afetiva
O impacto do Natal Solidário, segundo voluntários e apoiadores, vai além do presente material. O que move a equipe é o encontro com as comunidades e a possibilidade de proporcionar, para muitas crianças, uma experiência única.
A jovem estudante Maria Luiza de Assis Nunes participa da ação e descreve a emoção de viver a entrega. “A parte mais gratificante é ver a gratidão das crianças e das famílias. Todo ano, vou fantasiada, e as crianças ficam muito animadas. Eles recebem a gente de forma muito acolhedora, com o mesmo carinho que chegamos lá para entregar os presentes”, conta.
Engajada desde mais nova nas iniciativas dos Anjos do Asfalto, ela diz que é uma oportunidade única para fazer o bem. “Pra mim, o Natal Solidário é muito importante, passo o ano todo pensando nele, em qual fantasia vou usar, e acho que é algo que todos deveriam fazer um dia porque traz uma alegria muito grande”, completa Malu, como é carinhosamente chamada.
Saulo Monteiro corrobora: “É muito gratificante. Tem relatos de pais que contam pra gente que aquele foi o único brinquedo que a criança recebeu no ano, e eles agradecem muito. Pra gente, é uma satisfação muito grande. Só quem está lá vai entender o propósito”.
E quem é o Papai-Noel dessa festa? Outro personagem que já virou símbolo do Natal Solidário é o empresário Márcio Valério de Oliveira, que assume o papel de Papai-Noel todos os anos. “Com certeza, é o melhor dia do ano! Saímos animados e encontramos crianças cheias de sorrisos, principalmente quando veem o Papai-Noel. É muito emocionante. A equipe dos Anjos é animada, e, enquanto eu puder vou ajudar, estarei presente, porque acho importante para as crianças”, declara.
Dono da Buritis Automóveis, a chamada Casa do Taxista, Márcio nunca vai sozinho. Elizabeth, esposa dele, está sempre presente. Os filhos, Camila, Laura e Vítor, também participam, mas, neste ano, não conseguiram estar presentes. Elizabeth ajuda em tudo: distribuir os presentes, organizar as filas, dar atenção para as crianças. Está sempre disposta e se desdobrando entre as várias tarefas que aparecem.
Presença nas comunidades
A história do Natal Solidário remonta a 2010, quando o grupo decidiu criar uma iniciativa com foco especial nas crianças. A vice-presidente dos Anjos do Asfalto, Janaína Rufo, percebeu que havia muitos movimentos para arrecadar cestas básicas, cobertores e roupas e poucos voltados para as crianças.
Saulo Monteiro conta que o grupo decidiu então substituir um momento de confraternização de fim de ano entre a equipe pela ação voltada para as crianças na região onde o trabalho dos Anjos é feito.
Wanessia dos Santos Pereira é voluntária nos Anjos do Asfalto e participou ativamente da coleta dos brinquedos. Enfermeira e diretora financeira do grupo, ela faz questão que o ponto de partida para o Natal Solidário seja na casa dela todos os anos. Antes de sair, a equipe se encontra, e ela serve um delicioso café da manhã.
“Cada brinquedo é escolhido com todo carinho e amor, pensando sempre na alegria das crianças ao receberem. Neste ano, não pude estar presente na entrega, como sempre faço, mas me dediquei antes para que os brinquedos pudessem chegar a todas as crianças”, conta Wanessia.
“É uma iniciativa muito bonita, que as crianças ficam esperando, e não podemos desapontá-las. Temos muito cuidado e carinho na organização para garantir que todas recebam presentes em ótimo estado de conservação quando não são novos. Por isso, quando termina a entrega, começamos a planejar o próximo. A nossa alegria é tão grande quanto a delas”, completa a enfermeira.
DNA solidário
A edição de 2025 contou com o apoio de diversas instituições e parceiros, incluindo o Sindicato dos Cegonheiros de Minas Gerais (Sintrauto-MG), a Prevenir Proteção Veicular, a Cooperativa dos Cegonheiros de Minas Gerais (Coopercemg) e outras.
O Natal Solidário é uma das ações sociais de maior visibilidade dos Anjos do Asfalto, mas não é a única. O grupo acumula histórico de participação em mobilizações emergenciais e missões humanitárias ao longo dos últimos anos.
Entre as iniciativas, o grupo arrecadou e entregou fogões para vítimas do ciclone extratropical que atingiu o Sul do Brasil em 2024. Também participou da campanha SOS Manaus, em janeiro de 2021, para garantir oxigênio a pessoas acometidas pela Covid-19. Em tempo recorde, foram arrecadados 62 cilindros de oxigênio pra pacientes que precisavam de suporte respiratório.
Outro marco foi a atuação no resgate de vítimas do desastre de Brumadinho, em janeiro de 2019, em uma das maiores operações de emergência já registradas em Minas Gerais.
Com cerca de 20 anos de atuação, o grupo mantém a essência humanitária, de fazer o bem e ajudar no que for preciso, inclusive atuando em grandes emergências.
Atualmente, os Anjos têm um total de 38 voluntários - médicos, socorristas, enfermeiros, técnicos em enfermagem, acadêmicos de medicina e outros.
Ao fim de mais uma edição do Natal Solidário, o sentimento entre os voluntários é o de missão cumprida - mas também de responsabilidade renovada. Para os Anjos do Asfalto, a festa é um símbolo de que o trabalho humanitário, mesmo quando nasce na urgência dos acidentes na rodovia, pode alcançar algo ainda maior: a chance de oferecer alegria, dignidade e memória afetiva para quem mais precisa.










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