Perigo no caminho
Número de acidentes em rodovias federais do país bateu recorde em 2024, revela estudo da Fundação Dom Cabral
As rodovias federais brasileiras acumularam mais de 56 mil acidentes de trânsito em 2024, atingindo o maior patamar da série histórica iniciada em 2018.
As rodovias federais brasileiras acumularam mais de 56 mil acidentes de trânsito em 2024, atingindo o maior patamar da série histórica iniciada em 2018. Cerca de 5.000 pessoas perderam a vida nesses sinistros, enquanto quase 16 mil sofreram ferimentos graves. Os números, apresentados em dezembro último, são da Plataforma de Infraestrutura em Logística de Transporte, da Fundação Dom Cabral (PILT/FDC).
O estudo utilizou dados do volume de tráfego do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e de ocorrências registradas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). O resultado mostrou que, em 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19, houve um recuo no número de acidentes. Nos anos seguintes, contudo, o aumento tornou-se progressivo, superando os períodos pré-pandêmicos.
Na análise por rodovias, observou-se uma concentração em trechos de maior fluxo logístico, como as BRs 101, 116 e 381, que lideraram o ranking de acidentes em todos os biênios estudados. Algumas das explicações para esse cenário são o aumento do transporte rodoviário de cargas Ð responsável por mais de 65% da matriz logística brasileira Ð e o adensamento urbano ao longo desses corredores.
Metodologia
Para fazer a comparação equilibrada entre trechos rodoviários com diferentes intensidades de tráfego, o estudo utilizou dois indicadores técnicos: a Taxa de Acidentes (TAc), que neutraliza o impacto do volume de tráfego no total de ocorrências, e a Taxa de Severidade de Acidentes (TSAc), que, além de considerar o volume, pondera os acidentes de acordo com a gravidade deles.
Entre 2018 e 2024, as duas taxas apresentaram tendência geral de crescimento. A TAc variou entre 1,97 e 2,34, e a TSAc oscilou entre 9,02 e 9,88. “Esse número revela não somente o aumento do número de acidentes, mas também a piora da gravidade das ocorrências”, avalia o professor e diretor do Núcleo de Infraestrutura e Logística da FDC, Paulo Resende.
O levantamento da entidade reforça que a infraestrutura da malha rodoviária continua sendo um fator central. Pistas simples acumularam 52,4% dos acidentes, liderando com folga as taxas de severidade, especialmente em colisões frontais e laterais.
Nas vias de pista dupla (duplicada), apesar do volume de tráfego maior, a severidade foi significativamente menor no período analisado, indicando o impacto direto do padrão geométrico no risco viário. Trechos com traçado em “reta” (tangente) concentraram 46,4% dos acidentes, mas curvas e declives apresentaram maior proporção de ocorrências graves e fatais, evidenciando os desafios críticos de segurança que a geometria viária ainda impõe.
Períodos e veículos
Considerando-se o momento do dia em que ocorreram os acidentes, o período diurno concentrou a maior parte deles (54%), de acordo com o estudo. No entanto, a severidade das ocorrências foi maior à noite (35% do total de sinistros), com mais mortos e feridos graves, resultado da combinação de baixa visibilidade, fadiga do motorista e menor fiscalização.
No tocante às condições meteorológicas, a tendência foi a mesma: 59,4% dos acidentes aconteceram em ocasiões com céu claro, mas chuva e garoa elevaram o risco de colisões graves, sobretudo entre veículos pesados.
A apuração da fundação também mostrou que automóveis estavam envolvidos em 40,8% dos acidentes, mas os caminhões-tratores Ð veículos articulados e de maior porte Ð concentraram 13,5% das ocorrências, aparecendo de forma desproporcional nos acidentes severos.
Nos registros com óbitos, os caminhões ultrapassaram a participação dos automóveis em diversos tipos de acidentes, como tombamentos e colisões traseiras. Já as motocicletas, embora representassem 16,3% das ocorrências, foram responsáveis por uma parcela significativa de feridos graves.
Respostas
De acordo com a FDC, a análise dos dados evidencia um quadro que exige respostas simultâneas em três frentes. A primeira é a infraestrutura: ampliar faixas adicionais em trechos críticos, duplicar corredores de alto fluxo e corrigir curvas, declives e interseções que concentram eventos de alta severidade.
A segunda é a gestão: reforçar a fiscalização direcionada, priorizar horários e trechos críticos e expandir programas de monitoramento inteligente. Por fim, a terceira envolve comportamento e capacitação: ampliar campanhas educativas, programas para motoristas profissionais e políticas de combate à fadiga e ao excesso de jornada.
A fundação conclui que, sem intervenções coordenadas, a tendência é que o crescimento do fluxo logístico e da motorização mantenha os acidentes em um patamar elevado. A recomendação da entidade é que, em um país onde mais de 60% do transporte de cargas depende das rodovias, a agenda da segurança viária seja tratada como parte estratégica da competitividade nacional.
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