Solidariedade que transborda
Anjos do Asfalto mobilizam setores da sociedade na arrecadação de itens para vítimas das chuvas na Zona da Mata mineira e colocam sua experiência técnica em atendimento a serviço da população atingida
As chuvas históricas que atingiram a Zona da Mata mineira no fim de fevereiro deste ano provocaram uma das maiores tragédias recentes de Minas Gerais, devastando especialmente as cidades de Juiz de Fora e Ubá.
As chuvas históricas que atingiram a Zona da Mata mineira no fim de fevereiro deste ano provocaram uma das maiores tragédias recentes de Minas Gerais, devastando especialmente as cidades de Juiz de Fora e Ubá. Deslizamentos de terra, enchentes súbitas e colapso de imóveis deixaram dezenas de mortos, milhares de desabrigados e um rastro de perdas materiais e emocionais.
O balanço definitivo, divulgado em 1º de março pela Polícia Civil, apontou 72 mortesÊna tragédia e mais deÊ9.300 pessoas desabrigadas ou desalojadas, representando o quarto maior desastre por chuvas no Brasil na última década de acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Em Juiz de Fora, 65 pessoas perderam a vida, e a Defesa Civil do município registrouÊ8.584 afetados diretamenteÊ(desabrigados e desalojados), comÊ2.666 ocorrênciasÊatendidas, incluindo soterramentos em bairros como Paineiras, JK e Bom Clima. A cidade de Ubá registrou sete mortes,Êmais de 700 desalojadosÊeÊ145 resgatesÊem meio à maior enchente da história da cidade, quando o Rio Ubá atingiu 7,82 metros.
Famílias inteiras foram soterradas por deslizamentos em Juiz de Fora durante a madrugada, com vítimas de todas as idades Ð crianças, adultos e idosos Ð surpreendidas pelo volume recorde de chuva em poucas horas. Em Ubá, a tragédia veio das águas. Cerca de 170 mm de chuva em três horas transformaram ruas em rios, isolando bairros e arrastando tudo à frente.
Corrente do bem
Características distintas, mas a mesma dor. Juiz de Fora e Ubá receberam a solidariedade de todo o Brasil, e um dos propulsores de uma corrente do bem foi o grupo de voluntários Anjos do Asfalto. Reconhecida em seus 20 anos de atendimento às vítimas de acidentes rodoviários e em situações adversas causadas por eventos extremos climáticos, a equipe, mais uma vez, protagonizou ampla mobilização para arrecadação de itens e também assistência às vítimas.
“Chegamos a Ubá três dias após o pico da tragédia e encontramos uma cidade marcada pela destruição, mas com o resgate de vítimas já concluído pelas forças oficiais. Em diálogo com a Defesa Civil da cidade e o com prefeito, o grupo focou levar doações às áreas remotas e oferecerÊatendimentos clínicos básicos. Assim, complementamos a atuação sistêmica às vítimas com logística e humanitarismo. Estávamos prontos para atuar na linha de frente caso fosse preciso e se as autoridades locais permitissem”, enfatiza o presidente dos Anjos do Asfalto, Geraldo Eugênio de Assis.
Ele explica que oito profissionais, com formação técnica-profissional em saúde e socorrismo, participaram da missão tendo como apoio três ambulâncias e um veículo off-road com antena de internet para garantir a comunicação.
Essa estrutura propiciou a entrega de dezenas de doaçõesÊcomo primeira resposta às necessidades mais urgentes:Êágua potável, cestas básicas, roupas e itens de limpeza, essenciais para a rotina das famílias impactadas. No fim de semana seguinte, o grupo retornou a Ubá com uma nova carga de ajuda:Êmais de 5.000 litros de água,Êcentenas de kits de produtos de limpezaÊe outras doações, alcançando aproximadamenteÊ150 pessoasÊcom apoio direto.
Geraldo enfatiza que tudo foi possível graças a diversos parceiros que apoiam o grupo mensalmente e que também atendem aos chamados dos Anjos do Asfalto de mobilização em ações específicas Ð como na Zona da Mata e em outras missões como as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 e crise de oxigênio em Manaus durante a pandemia.
“Não levamos somente toda aparelhagem para atender as demandas necessárias para salvamento, mas também entregamos muito amor ao próximo, convertido em doações essenciais naquele momento. Agradecemos a confiança das pessoas e das empresas que apoiam o nosso trabalho e a oportunidade que nos foi dada de poder fazer o possível por aqueles que perderam tudo”, afirma.
Vozes da solidariedade
Como as parcerias foram fundamentais para que houvesse assistência às vítimas das chuvas na Zona da Mata mineira, a equipe de reportagem conversou com os principais apoiadores da mobilização coordenada pelos Anjos do Asfalto. Os apoiadores que não aparecem nesta matéria optaram pelo anonimato, mas destacaram a grandiosidade e a satisfação em participar.
“O setor privado pode contribuir de diversas formas: com logística, equipamentos, doações e apoio técnico. Empresas de transporte, construção e engenharia têm capacidade de mobilização rápida, que pode ajudar muito em momentos críticos. A colaboração entre poder público e iniciativa privada é decisiva para acelerar a recuperação, e o Sintrauto/MG deslocou para lá uma ambulância pra ajudar na remoção e no atendimento à população”, salienta Carlos Roesel, presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Minas Gerais (Sintrauto/MG).
“A Coopercemg apoiou institucionalmente a mobilização coordenada pelos Anjos dos Asfalto por meio da doação de água e de combustível para os veículos que ajudaram na missão. Neste mundo, presenciamos muita desigualdade social e tragédias que acometem pessoas, e, nesse contexto, temos que ajudar. Somos privilegiados e devemos agradecer a Deus e sempre ser colaborativos”, diz Zé da Padaria, presidente da Cooperativa dos Cegonheiros de Minas Gerais (Coopercemg).
“A nossa parceria com os Anjos do Asfalto é de longa data. Por isso, em todas as situações que precisam de ajuda, estaremos à disposição. Minha equipe já está avisada: se o Geraldo solicitar algum apoio, é para atender com prontidão! Ele faz um trabalho com muita responsabilidade e seriedade”, afirma o presidente da Giro Locações, Ionaldo Pereira do Amaral.
Ítalo Matheus, proprietário da Gênesis Transportes, conta que a iniciativa da empresa de recolher itens para a Zona da Mata começou por meio da união do pai dele, Cláudio Eustáquio, e do motorista Danilo, que se voluntariou para levar as doações. “Começamos uma mobilização e, em apenas um dia, conseguimos 220 cestas básicas. Devido a essa grande adesão, repercutimos em nossa rede de amigos e colegas e conseguimos encher completamente uma carreta com alimentos, roupas, brinquedos, água, produtos de limpeza e de higiene pessoal. Assim, unimos nossas forças com a iniciativa dos Anjos do Asfalto”, ressalta.
“Carrego comigo a missão de ajudar pessoas e animais por meio do trabalho social. Ter o Geraldo ao meu lado nesta jornada é uma bênção. Um ser humano incrível, de coração imenso, que inspira e mobiliza pessoas todos os dias. Por meio dele, a corrente do bem se fortalece, alcançando milhares de vidas com solidariedade e esperança. Utilizo as redes sociais para mobilizar as pessoas, coloco minha loja como ponto para entrega, fazemos a triagem e separamos para que as doações cheguem da melhor forma possível, pra prontamente ajudar”, diz Kênia Regiane, empresária do ramo de moda fitness, proprietária da Elite Esportes.
Thiago Braga, integrante do grupo Anjos do Asfalto, corroborou com os demais voluntários: “Mais de 700 colaboradores da companhia aérea em que atuo se uniram para colaborar com a iniciativa. O resultado foi surpreendente: mais de cem cestas básicas, muita água, material de limpeza e de higiene pessoal, roupas, brinquedos, e até um colega que fez chá de fraldas para seu bebê doou tudo que recebeu. A adesão foi muito rápida e emocionante”.
“De toda e qualquer ação que nosso amigo rotariano Geraldo propuser vamos participar. Pra gente, não é trabalho, e, sim, mais uma oportunidade de honrar nosso lema: ‘Dar de si antes de pensar em si’. Nesse sentido, conseguimos destinar mais de 250 cestas básicas e produtos de higiene pessoal e de limpeza”, diz Celso Eduardo dos Santos, Rotary Club de Contagem - presidente no ano rotário 2025/2026.
“Abraçamos a iniciativa com o objetivo de apoiar o trabalho que estava em desenvolvimento nos Rotarys da região atingida. Por isso, conseguimos uma quantidade importante de água e de outros itens. Nossa missão é promover um mundo melhor e contribuir em todas as áreas: saúde, educação, profissionalização de jovens e muito mais. Temos que agradecer por tudo que temos, e posso garantir que é muito melhor ajudar do que ser ajudado”, conta Ronei Alves, Rotary Club de Contagem - governador no ano rotário 2024/2025.
Para o presidente dos Anjos do Asfalto, sem esse apoio seria impossível. “Nosso reconhecimento a todos que se envolveram nesta ação solidária. Vocês doaram não apenas itens essenciais, mas também tempo precioso, dedicação e solidariedade, que fizeram toda a diferença para as comunidades afetadas. Recebam minha gratidão, e, oportunamente, agradeço também aos Legendários de Betim”, finaliza Geraldo Assis.
De frente com o problema
Marcos Antônio de Souza, do Rotary Club de Ubá, conta que cada item recebido encheu a cidade de esperança para recomeçar. “Geraldo me contatou quando o rio subiu, e, em seguida, começamos o trabalho conjunto. O nível de estresse durante os acontecimentos é muito grande, porque perdemos pessoas, e o impacto no município foi na área comercial. É muito triste presenciar o rio levando vidas e bens adquiridos com muito esforço”, diz.
Ele conta que mais de 500 empresas foram atingidas, e, desse montante, 20% não recuperam nada e, possivelmente, não voltam às atividades comerciais. Segundo estimativas das autoridades da região, aproximadamente mil veículos ainda não foram encontrados em Ubá, pois foram levados pela correnteza.
O rotariano, que também é diretor da Apae no município, também ressalta o impacto das enchentes na instituição: “A água atingiu cerca de 3 m de altura, e perdemos veículos, equipamentos para fisioterapia, odontologia e próteses. Foi um prejuízo grande”.
Wesley Heleno, que trabalha na Secretaria Municipal de Agricultura, Ambiente e Mobilidade Urbana, frisa que a atuação dos Anjos do Asfalto foi fundamental: “Aprendi com essa equipe atividades em situação extrema em que estávamos. Ajudou demais, e só tenho que agradecer. Rezo para que eles voltem a Ubá, que estará reconstruída e voltará a ser reconhecida como a Cidade Carinho”.
Recomeços
Recentemente, em Ubá, foi iniciada uma força-tarefa para intensificar as vistorias nos imóveis atingidos. A ação busca garantir a segurança das famílias, promovendo, quando necessário, a interdição e a evacuação segura das residências comprometidas.
Além da proteção imediata, esse trabalho técnico é base para o encaminhamento das famílias aos programas de apoio do governo federal, como o Auxílio Reconstrução e a modalidade de compra assistida do Minha Casa, Minha Vida, assegurando condições para a reconstrução de suas vidas.
A Defesa Civil também acompanha de forma permanente as ações de remoção das estruturas de pontes colapsadas no leito do Ribeirão Ubá, medida fundamental para garantir o escoamento adequado da água e reduzir riscos de novos alagamentos.
Em Juiz de Fora, as famílias desalojadas estão prioritariamente com hospedagem em hotéis e apartamentos exclusivos pela prefeitura. Um contrato de R$ 5 milhões com a EmCasa gerencia prospecção, locação e acompanhamento de moradias emergenciais.
A Prefeitura de Juiz de Fora, por meio da Secretaria Especial de Direitos Humanos, orienta que, neste momento, o foco de ajuda passa a ser a reconstrução dos lares, com arrecadação de utensílios domésticos, como panelas, pratos, copos e talheres, além de materiais de limpeza pesada, como vassouras, rodos, baldes, panos e luvas, essenciais para a higienização dos imóveis atingidos. Também são necessários móveis e eletrodomésticos básicos, como colchões, camas, fogões e botijões de gás, fundamentais para a reestruturação dos lares.
“Superamos a fase emergencial graças à grande mobilização da sociedade. Agora, entramos em um momento que exige organização e continuidade da solidariedade. As famílias precisam reconstruir seus lares, e isso passa por itens básicos do dia a dia, que garantem autonomia e dignidade”, afirma o secretário especial de Direitos Humanos de Juiz de Fora, Biel Rocha, no portal de notícias do município.

























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