Sonho americano 
na boleia

Gisely e Fred Libório, ex-voluntários dos Anjos do Asfalto, arrumaram as malas e abriram uma empresa de transporte nos Estados Unidos. Hoje, ela também é caminhoneira, e, juntos, já cruzaram 48 Estados.

Empreendedorismo / 15 de Fevereiro de 2024 / 0 Comentários

O sonho americano a bordo de um caminhão. Gisely Libório, que foi voluntária no Grupo de Resgate Anjos do Asfalto, conta como é a vida dela e do marido Frederico Libório, que também foi do grupo, desde que eles se mudaram para os Estados Unidos.

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O sonho americano a bordo de um caminhão. Gisely Libório, que foi voluntária no Grupo de Resgate Anjos do Asfalto, conta como é a vida dela e do marido Frederico Libório, que também foi do grupo, desde que eles se mudaram para os Estados Unidos. Ele tinha o sonho de ser caminhoneiro, e ela largou tudo para acompanhá-lo. Lá, abriram uma empresa de logística, tiraram carteira de caminhão e carreta e, juntos, já cruzaram 48 Estados norte-americanos levando sonhos e a cachorrinha shitzu Lady na cabine.

Entre uma viagem e um descanso, Gisely concedeu entrevista à Entrevias e contou como conseguiram se estabilizar no país e como é a vida da mulher empreendedora e caminhoneira na América. No Brasil, ela já trabalhava na área de logística. Formada em administração e especializações em negócios e gestão estratégica de pessoas, ela atuava na gestão e no desenvolvimento de equipes em empresas. Nunca imaginava que um dia pegaria uma estrada americana pilotando um caminhão.
 
O casal mora em Orlando, na Flórida, e até hoje só não foram para o Havaí e para o Alasca porque, no último caso, é preciso cruzar o Canadá. “Mas ainda é nosso sonho. Já cruzamos até hoje 48 Estados americanos trabalhando e como turistas”, contou. 
 
Frederico já tinha carteira de caminhão no Brasil, mas Gisely nunca aprovou ele seguir a profissão. “Nunca aprovei ele ser caminhoneiro, porque sabemos das dificuldades, das inseguranças. Tiro o chapéu para quem segue. São pessoas muito batalhadoras”, disse. 
Eles já haviam passado uma temporada nos Estados Unidos e, em 2018, voltaram com o objetivo de construir carreira e residência. Iniciaram o processo de concessão de visto de trabalho e, já no país, entraram na área empreendedora. “Já viemos para cá de férias duas vezes e sempre tínhamos o sentimento de querer ficar, principalmente dele, que queria ser caminhoneiro, tinha vontade de viver esse sonho sendo caminhoneiro”, contou Gisely.
Frederico era enfermeiro no Brasil e socorrista voluntário nos Anjos do Asfalto. Nos sete anos antes de irem para os Estados Unidos, ele trabalhou também com táxi. “Fred foi voluntário no Anjos por dez anos. Eu também atuei como voluntária para ajudar na gestão, não no socorro. Às vezes, o grupo precisava de outros apoios”, lembrou.
 
Vida de caminhoneira
O objetivo do casal era chegar aos Estados Unidos e Frederico tirar a carteira de motorista americana, eles investirem em um caminhão e Gisely ajudá-lo com as cargas e a administração da empresa. “A ideia nunca foi eu me tornar caminhoneira também. No início, eu ia com ele porque nos Estados Unidos cada Estado tem uma lei diferente, e era importante a companhia pra ele se sentir mais seguro com relação à língua, às leis, às inspeções que acontecem na estrada e outros desafios”, contou.
 
De repente, ela foi se apaixonando pela estrada, por estarem cada dia em uma cidade diferente. “A gente parava o caminhão e fazia turismo em lugares que eu nunca imaginava. Quando tínhamos oito meses de estradas, decidi tirar minha carteira de caminhoneira. Aqui o processo é longo, dura em média três meses, mas eu levei apenas uma semana para finalizar as provas teóricas e práticas. Em pouco tempo já estava com minha carteira nas mãos”, relata.
 
Na estrada, ela conta, existem desafios para a caminhoneira e empreendedora, mas também há situações mais respeitosas. Ela cita, por exemplo, que todas as paradas para descanso têm total segurança e lugares específicos para a mulher, como banheiros. “Não quero romantizar. Existe a parte difícil sim, existe violência e a questão do clima: no inverno, é muito difícil dirigir na América, mas, para a mulher em si, sempre tem estrutura, como chuveiros, banheiro adequado, estrutura de primeiros socorros, itens de segurança, lanchonetes, assistência para pneu, troca, freio, entre outros. Já vi casais de 60, 70 anos dirigindo na estrada. É incrível”, conta Gisely.
O número de mulheres motoristas no país, assim como no Brasil, ainda é minoria se comparado ao universo masculino. Mas ela garante que o número de mulheres ao volante na América está crescendo. “Tenho visto com mais frequência, e, muitas vezes, estão sozinhas trabalhando, abastecendo, calibrando pneu”, diz.
 
Mas ela relata que ainda existe preconceito, e elas vivem situações de machismo na estrada. “Vivemos situações variadas de desrespeito. Muitas vezes, por sermos mulheres, sempre vem uma pessoa puxando assunto com outras intenções, e também há diferença na questão salarial ainda. As mulheres recebem um percentual mais baixo de comissão. Ser mulher imigrante também é um desafio e alvo de muitos questionamentos sempre. Parece que não podemos nos desenvolver...e o imigrante acaba abrindo portas e encontrando oportunidades”, explica. 
 
Documentação
Hoje, eles estão com visto de trabalho e em busca do chamado green card, que é o visto permanente para estar no país concedido pelo Estado americano. Ela aproveita para explicar como está o mercado de trabalho na área de logística e transporte rodoviário de cargas nos Estados Unidos: “o mercado de transporte aqui é um dos mais promissores da América, movimenta bilhões de dólares, e o país tem os portos mais importantes do mundo, recebe importação todos os dias em todos os lados”, afirma.
 
Ela alerta que estar com toda a documentação exigida permite que a pessoa consiga uma vaga de trabalho nessa área. Mesmo assim, muitas empresas já estão recrutando motoristas e se responsabilizando pela entrada daquele profissional no país. “O país está oferecendo muitas oportunidades para receber essa mão de obra hoje”, explica. 
 
A estimativa é que há falta hoje nos Estados Unidos de cerca de 100 mil motoristas de caminhões. Além da alta demanda de consumo, o país tem uma lei rígida a respeito das horas de descanso, o que obriga o revezamento ao volante para cumprir o período de entrega da carga. Segundo Gisely Libório, não se pode dirigir mais de 11 horas por dia. “Uma pessoa só não dá para fazer o giro da produtividade e rentabilizar o negócio. Como tem falta de caminhoneiro, é importante achar duas pessoas que estão dispostas a dividir o caminhão”, explica. E essa realidade vivida pela empresa dela é compartilhada com as milhares de companhias do país.
 

 

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