Vidas no centro
Segurança no trânsito avança com foco em velocidade, comportamento e desenho das cidades
O debate sobre segurança no trânsito no Brasil está assumindo uma abordagem mais estrutural. Foi o que mostrou o 4º Seminário Internacional de Segurança no Trânsito, que consolidou uma mudança importante: tratar mortes e lesões como problema sistêmico, e não apenas como falha individual.
Com o tema “Novos caminhos para a proteção da vida”, o encontro, promovido pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), colocou no centro da discussão a necessidade de integrar educação, infraestrutura e fiscalização em uma estratégia única de prevenção.
Essa abordagem não é trivial. Ela rompe com a lógica tradicional de responsabilizar exclusivamente o condutor e passa a considerar o sistema viário como um todo Ð conceito alinhado às melhores práticas internacionais, conhecidas como “Sistema Seguro”. Nesse modelo, parte-se do princípio de que erros humanos são inevitáveis e de que o ambiente precisa ser projetado para evitar que esses erros resultem em mortes.
A diretora do Departamento de Segurança no Trânsito da Senatran, Maria Alice Nascimento Souza, abriu o seminário com o primeiro painel sobre formação de condutores e reforçou a importância de alinhar práticas brasileiras a experiências internacionais.
“O trânsito é, de fato, um tema complexo. É preciso abordá-lo de forma integrada, pelo viés da educação, da infraestrutura e da fiscalização. No ano passado, registramos uma redução de sinistros nas rodovias federais, graças a um trabalho intenso de fiscalização. Por isso, precisamos trazer todos esses setores para essa discussão”, afirmou Maria Alice.
VELOCIDADE: O PONTO CRÍTICO
Entre os temas mais contundentes discutidos está a gestão de velocidade. O seminário marcou o lançamento do Guia de Gestão de Velocidades, documento técnico que orienta estados e municípios a adotarem limites mais adequados ao contexto urbano.
A velocidade é um dos principais fatores de risco no trânsito, influenciando tanto a ocorrência quanto a gravidade dos sinistros. Segundo especialistas presentes no evento, reduzir velocidade não é apenas uma medida operacional Ð é uma estratégia de saúde pública.
O guia propõe um conjunto articulado de soluções: revisão de limites, redesenho de vias, uso de tecnologia para fiscalização e campanhas de comunicação. Mais do que isso, sugere integrar mobilidade urbana, uso do solo e proteção de usuários vulneráveis, como pedestres e ciclistas.
Na prática, trata-se de mudar o paradigma das cidades, saindo de um modelo centrado no fluxo de veículos para outro orientado à segurança das pessoas.
Outro eixo relevante foi a formação de condutores. Especialistas apontaram que o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais nesse campo, com necessidade de atualização de métodos de ensino e maior alinhamento com experiências internacionais.
A discussão avançou para além da habilitação inicial. A proposta é incorporar educação contínua, campanhas permanentes e políticas públicas capazes de influenciar comportamentos no longo prazo.
Nesse sentido, entidades como o Sest/Senat destacaram a importância da integração entre formação profissional, qualificação contínua e políticas públicas como caminho para reduzir a violência no trânsito.
INFRAESTRUTURA
Foram discutidas melhorias em sinalização e pavimentação até intervenções mais profundas, como faixas adicionais, rotatórias, travessias seguras e reorganização do espaço urbano. A ideia é reduzir conflitos entre veículos e usuários vulneráveis, especialmente em áreas urbanas.
Um dos indicativos de avanço é que parte dessas soluções já está sendo aplicada no país. O Prêmio Senatran reconheceu iniciativas alinhadas ao Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), incluindo projetos de tecnologia, fiscalização e intervenções urbanas.
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